3 TEXTOS

Rubem Azevedo Alves

Foi psicanalista, educador, teólogo e escritor Brasileiro, é autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.

QUANDO OS FILHOS VOAM...

Sei que é inevitável e é bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como ninho abandonado no alto da palmeira...
Mas, o que eu queria mesmo, era poder faze-los de novo dormir em meu colo...
Existem muitos jeitos de voar.Até mesmo o vô dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem...
Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar.Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.
Mas chega um momento em que a liberdade bate a porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.
É quando nos damos conta que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.
É chegado então o tempo de recolher nossas asas .Aprender a abraçar a distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

A ARCA de Noé

Tudo que preciso saber sobre a vida aprendi com a arca:

Não perca o barco;
Lembre-se que estamos todos no mesmo barco;
Planeje com antecedência, não estava chovendo quando Noé construiu a Arca;
FOTO: Autor desconhecido
Mantenha-se em forma, quando estiver com uns seiscentos anos de idade, alguém pode pedir que faça algo realmente grande;
Não ouça os críticos, só se empenhe no trabalho que deve ser feito;
Construa seu futuro em terreno alto;
Por razões de segurança viaje aos pares;
A velocidade nem sempre é uma vantagem, os guepardos estavam a bordo da arca mas as tartarugas também;
Quando estiveres estressado procure boiar;
Lembre-se que a arca foi construída por amadores e o titanique por profissionais.

AUTOR DESCONHECIDO


UMA DURA REALIDADE


            Sabemos da existência de outras realidades bem e muito diferentes da nossa. Mas não nos damos conta que essas realidades são bem mais complicadas.
Quando criança em minha cidade existia duas pessoas que sofriam do mesmo mal, mas com comportamentos e reações bem diferentes. Um, quando provocado escorando-se pelas paredes do bar tentava correr atrás da garotada com sua bengala tentando o que nunca conseguia, devido a sua limitação, alcança-los e dar-lhes bengaladas. Esse era frágil, embora trágico e atraindo pena para sí arrancava risada da garotada que o provocava. O outro, um negro, baixo mas forte, quando em crise andava de short e sem camisa pela rua gritando: “Eu sou Jorge Franco – seu nome mesmo – deixei de ser branco pra ser franco”.  Como se ele realmente tivesse tido a opção de escolher entre uma coisa ou outra. Bem, as interpretações dessa frase acho que ninguém lá nunca se preocupou muito com isso. Minha mãe, corajosa, só duas coisas a faziam tremer em seu pequeno comércio: Quando recebia a visita do fiscal do icm e do Jorge Franco em crise, esse ela simplesmente abandonava o balcão. Esses dois casos por anos se repetiram ficando assim registrado em minha memória. Com o passar do tempo percebi o problema e não poucas vezes perguntava-me porque temos que presenciar, por que precisamos viver determinadas coisas. Coisas que as vezes parecem sem sentido. Numa cidadezinha tão pequena, no senso de 80, contava-se cerca de três mil pessoas. Como aconteciam coisas, fatos que nos levavam, os mais velhos como meus pais e seus amigos próximos a reflexões e nós os mais jovens, crianças, a simplesmente presenciar os fatos. Bem... quando presenciei esses dois casos em minha praticamente infância, a luta que aquelas famílias travavam, a tentativa desesperada de tira-las daquela situação. Todas duas, eram famílias de bem. Pessoas boas levavam suas vidas trabalhando e os filhos estudando, todas eram grandes, pessoas sérias, não as víamos envolvidas em coisas erradas, e não se sabe por que essas duas pessoas tornaram-se o que tornaram-se. E hoje vivendo esse quadro tão próximo não posso dizer nem que estou minimamente preparado para lidar com isso. Mas presenciar toda aquela situação, trouxe-me algumas conclusões.
Uma é que em alguns casos não adianta o esforço dispendido por familiares ou pessoas ao seu redor. Outro, é que uma vez envolvido jamais será o mesmo.
Outra ainda é a degradação, o declínio de uma personalidade onde passa a ser composta por desonestidade, mentiras e manipulação. Essas pessoas parecem passar a viver com um único objetivo. Tramam o tempo inteiro com um único propósito: Satisfazer sua necessidade. E a outra ainda e ter de paciência e não nos deixar levar ao desespero, sofrer o que nos cabe e deixa-las viver, e fazer o que estiver ao nosso alcance.
O caso que presencio atualmente demorei muito a compreender, só encontro uma explicação. Presencio a degradação de um jovem de apenas trinta e cinco anos que o conheci aos dois anos de idade, não ví como começou. Imagino que para trilhar por esse caminho a pessoa precisa ter uma infância conturbada, ele até teve em parte, mas também tiveram outras coisas positivas. Imagino também que a pessoa deva carregar frustrações, decepções, amarguras... bem não é o caso. O jovem que cito, teve uma vida de conforto material e bons colégios. Inacreditavelmente quando prestou vestibular passou para todas as faculdades federal e estadual que escolheu. Optou pelas forças armadas, fez o curso de sargento e passou. Fez o curso para tenente e passou. Durante as provas parciais para tenente quando começou a ser o melhor da turma, percebeu que as cobranças aumentaram mas, percebeu também que se ficasse em segundo lugar ainda assim conseguiria escolher a cidade que gostaria de ficar e assim o fez, administrou de forma a escolher a cidade de sua preferência mas não receber a cobrança que o primeiro lugar recebia. Bem... dispensável avaliar o grau de inteligência do sujeito. Ou seja, pode-se dizer, que se não é um gênio está bem próximo, posso dizer também que é um vitorioso. Complemento ainda que apenas com essa idade tem um emprego federal,   tem uma família constituída,   carro e um    a p a r t a m e n t o num bairro nobre que recebeu como herança. Falta-lhe algo? Sim, Deus.
Não entendia porque entrou nessa, se levado porque se deixou levar e porque o levaram. Hoje entendo.
Tremo ao ver outros jovens também próximos com um copo na mão, não menos apavorado ao saber que estudos recentes chegaram a conclusão que nem todos, e só um pequeno percentual se tornará dependente. As vezes penso ...

Embora com certa resignação oro por um milagre, pois o pouco que vi, sair dessa só com intervenção divina.

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