D. Cida

            Filha de imigrante Italianos, daqueles que vieram para substituir a mão de obra escrava nos cafezais Brasileiros. Já nascida no Brasil compunha uma família com mais três irmãos. Viveu até se casar numa fazenda no interior do estado do Rio, fazenda bem tradicional, daquelas que para qualquer lado que se olhe é do mesmo dono, Sr. André, Polonês, imigrante também. O
privilégio dessa fazenda começa pelo fato de ser cortada pela rodovia principal, pela linha férrea e por um rio que até hoje é livre de qualquer tipo poluição, esse rio é afluente do que ajuda abastecer a cidade Rio de janeiro. Tinha mais dois córregos, não sei se de nascente própria. Tinha uma oficina, marcenaria, um forno para
fundir ferros, lava carros, frigorífico, pomar, horta, gado para produção de leite e corte, cavalos e granja esta incrível, tinha desde as matrizes passando por poedeiras até os de corte. Lá se fabricava a própria manteiga que de tão gostosa não se passava, colocava-se no pão como queijo, em pedaços. Seu rico patrimônio não parava ai também tinha uma igrejinha, bem pequena, mas linda, com uma bela pintura em seu teto. Claro a paixão nacional não podia faltar: Um campo de futebol. Era conhecido pela qualidade de sua grama, coberto em toda sua extensão, de tão certinha e bem cuidada parecia um campo de golf, não se via aquilo que chamamos de “careca”, nem embaixo do travessão. O campo era tão grande (devia ultrapassar as medidas oficiais) que o louco do meu tio, o responsável moral quando em funcionamento e responsável de fato pela sua manutenção, o corte da grama e suas demarcações, em seu time colocava doze homens, coisa que só fiquei sabendo recentemente em conversa de família nos oitenta anos de nossa mãe. Nós, os garotos jogávamos bola no corner sem atrapalhar o jogo oficial. A movimentação de carros chegando sempre cheio. Claro, não é como hoje que praticamente cada um tem o seu, cada um com sua sacola com suas indumentárias: Chuteiras, protetores, ataduras e a catimba, parecendo também ser retirada da sacola, nesse momento tinha muita brincadeira e provocações. Esse preparo provocava uma movimentação tal, ai sim o lugar pacato com seu ritmo cadenciado cedia a agitação. E nós os menores não tínhamos nenhum preparo, mas ver tudo aquilo esquentava nossos ânimos nos agitando também. Hoje, percebo que o sabor dessa lembrança para eles, os adultos, era o sabor de um momento muito esperado. Fatos eram lembrados durante dias, as vezes ultrapassavam semanas. Aquelas tardes de domingo, onde muita gente ia pra torcer pro time local, até as meninas, minhas irmãs e suas amigas gritavam palavras de ordem, refrãos para impulsionar o time, gesticulavam  e brigavam com o arbitro quando fazia alguma “m” ou cometia alguma injustiça. Ahh são recordações especialmente preservadas pela nossa memória que surgem, emergem para por em cheque as dificuldades. Analgésicos para momentos de dor. Lembranças que enfrentam maus períodos que por vezes temos, trazendo-nos a realidade: Que existiu, existe e existirão bons momentos.
Quando passamos pela estrada e começamos a avista-la, primeiro se via suas palmeiras, altas, bonitas, vigorosas,  e mais   de    perto    uma   grama   verdinha,        bem   cuidada   do tipo
dos palácios Ingleses. Cada vez que visito minha mãe e passo por ela lembro-me de detalhes que me empurram ao teclado. Seus personagens, hoje lembrando, parecem imaginários, todos conhecidos, amigos, amorosos, calmos, lentos, muito lentos, se comparados ao nosso ritmo atual parece que vejo um filme em câmera lenta, mas o engraçado é que o trabalho rendia, o serviço saia, prova disso eram suas cercas, sempre em dia, bem cuidadas. Educados apesar de broncos, conservadores, conversadores aliais, característica daquela época. Moravam na própria fazenda em casas cedidas pelo seu dono, com luz e leite de graça, e ainda com direito a criações para consumo próprio. Tinham desde galinhas com respectivamente ovos e pintinhos, patos da mesma forma, coelhos, cabritos e os mais diversos animaizinhos e horta nos fundos de casa. Pois é, como é isso ? Casa, luz, leite, criação e plantação ??!!! Vemos que centenas de milhares de famílias hoje não conseguem rendimentos para suprir essa necessidade. Seus filhos sonhavam em sair de lá e terem uma vida melhor. Melhor ? Quem sabe se os filhos destes não são os que não conseguem suprir suas necessidades básicas hoje nas cidades ? Que necessidade tem o ser humano de ir em busca do desconhecido e achar que é melhor ? Desconhecido, pois hoje contamos com uma mídia que nos mostra realidades diversas, e naquela época ? Bem ... reflexões a parte, pra finalizar a retratação da beleza daquela vida ou a beleza daquele sistema de vida, meu irmão maior tinha apelido: Rebarba, sabe por quê ? Comia a sobra das marmitas dos operários. Você consegue imaginar uma coisa dessas ? Comer o que sobrava das marmitas dos operários ? Só mesmo uma coisa justifica: O sabor daquelas comidas. Feitas no fogo a lenha lógico, com alimentos colhidos e feitos, carne, acho que nem era congelada.
Criada nesse ambiente cresceu bonita, injusta denomina-la assim, linda mesmo.
Esse ambiente amigável, de proximidade, aconchegante, familiar, formou temperamento sereno, tranquilo, reflexivo e de reações moderadas.
Casa onde viveu toda sua juventude 
Influenciou na formação de sua própria família, formou uma com cinco filhos, e contribuiu a sempre estar próximo das pessoas e mantinha seus filhos perto. Lembro-me, caçula, o último a sair de casa, por ordem natural das coisas, no dia de meu aniversario chegou ela, meu pai e toda a mudança pra morar comigo aqui no Rio. Que felicidade, sabia que teria muitas coisas, roupa lavada, comidinha feita por ela e claro todas aquelas coisas boas que só a mãe proporciona mas, principalmente a f e t o  e  presença. Te-la por perto me fazia e me faz seguro.
Admirável, tinha seu ritmo, organização. Nem quando ia sair tinha correria ou coisas fora do lugar, e olha o ônibus tinha seu horário. Suas bijuterias e algumas joias, sim tinha joias, todas organizadas em caixinhas, lembro-me de suas pérolas, um conjunto composto de colar de meia altura com bolas crescente até o centro, onde tinha a maior, e um par de brincos, quando usava ficava mais linda ainda. Deve ser por isso que adoro pérolas, mulher que se cobre de pérolas representa bem a sua feminilidade.
Sábia, todas as vezes que se deparava com um problema ou situação difícil tinha uma frase. Chegava quebrado, ralado, chorando, e lá ia ela sem a menor pressa pegar tesoura, gases, agua oxigenada enfim tudo aquilo que se usa nessas situações, com uma calma que parecia mãnha o meu choro. Uma vez cheguei com o dedo amassado de uma cadeira de cinema, ela chamou o médico que já estava lá em casa, amigo do casal, Dr Oswaldo de Araújo Lima, e o ajudou a praticamente reconstruir a cabeça do meu dedo que ainda hoje apresenta sequelas. Seus ensinamentos me trazem soluções, ecoam em minha cabeça até hoje, tinha frases como: “ Cabeça vazia é oficina do ... “ bem não precisamos terminar, né ? “Se colocar as coisas em seus lugares vai achar até no escuro “, “se quer ajuda de Deus, faça sua parte”,“um erro não justifica o outro”, ou ainda “quando um não quer dois não brigam”. Quando não achava algo, não via abalo em seu temperamento, não procurava muito, dizendo que mais tarde apareceria, e assim acontecia.
Crescemos, a vida foi passando e não menos difícil. Proprietários de um pequeno comércio na cidade, enfrentou dificuldades de todos os jeitos, financeira, marido adoeceu, nessa época tudo ficou muito desorganizado, lembro ter ido ao colégio com a mesma roupa do dia anterior sem lavar e passar. Fui até com meias trocadas cada uma de uma cor. Essa época sim, tudo ficou muito difícil, difícil mesmo. Tínhamos que almoçar na vizinha algumas vezes, saia pra resolver os problemas e não voltava a tempo de fazer o almoço, até que, por um tempo morei lá com ela. Amigos, nem assim a ví esmorecer, reclamar,  nem assim a vi se rebelar,  com alguém ou com Deus, não via revolta, não via desespero, nem assim a vi  chorar, até acredito que tenha chorado, mas não em nossa frente. Tinha amigas, amigas de verdade, onde podíamos almoçar quando não chegava a tempo, amigas para contar como foi o dia, das coisas que fez e conseguiu fazer, curioso: Não a via contando derrotas, via contando dificuldades que foram superadas. Mas a época era boa, a via sair de manhã e a noite quando chegava consigo trazia a solução, fosse o que fosse, uma transferência de hospital, uma ambulância, fosse o que fosse, falava com todos, desde diretores de hospitais a políticos, essa época tinha acesso a essas pessoas. Resolvido essas dificuldades iniciais, após alguns anos veio a estabilidade, mas com consequências, meu pai ficou imóvel em uma cama, pra tudo dependia dela, tudo. Desde comer a banho, e foi assim por mais de dez anos. E ela serena, levando em seu ritmo. Fechou o comércio, claro não podia mais cuidar dele. Mesmo diante de tantas dificuldades financeiras conseguiu preservar o que conquistaram juntos, não desfez de nenhum patrimônio  sequer, aliais hoje me confessa: Isso é conceitual, não vender se possível comprar. E que força, que conscientização era essa, sabia das dificuldades que passamos, isso refletia em nosso dia-a-dia e preservou tudo.
O tempo continuou a passar, viveu anos com muita dificuldade financeira, comecei a trabalhar e pude ajuda-la um pouco, meus irmãos também a ajudaram e assim prosseguiu em seu ritmo. Tinha uma impressão muito equivocada a seu respeito, parecia que ela simplesmente esperava a vida passar sem expectativa, sem planos simplesmente vivendo. Engano. Perdi meu emprego, meus irmãos também em dificuldades pouco podiam ajudar e, novamente dificuldades. Claro, o esperado: Serenidade e conformismo imperavam em sua vida, e seguia. Até que um dia fui passar um final de semana em sua casa e constatei a dificuldade em que viva. Não tinha o que fazer, não podia ajuda-la e a convidei então pra morar comigo. Não aceitou. Sofri, pois não podia mais ajuda-la, mas em minha casa ela teria melhores condições. Sofri muito com isso, por meses isso me incomodou muito, mas não podia fazer mais nada, não podia ? Sim podia, quando é humanamente impossível sabemos o que fazer. Orei a Deus e Ele atendeu minhas orações. Em meses, em poucos meses amigos, vi sua vida se transformar. O pequeno comércio que tinha com mais de dez anos fechado sem conseguir aluga-lo, dividiu-o formando duas lojinhas e as alugou. Somou a pensão de meu pai, pequena é verdade, aumentando sua renda e melhorou bastante quando sua aposentadoria saiu. Enganado estava em pensar que ela esperava a vida passar simplesmente, sem expectativa, sem planos, pois hoje com mais de 80 anos, fez melhorias em seu comércio, faz pequenas obras em sua casa conservando-a, aumentou mais um quarto pra receber seus filhos com netos e tem planos para fazer churrasqueira e ainda... planos... e planos.
Sei que nessas poucas palavras não conseguiria expressar tudo que ela é pra mim e com certeza pra toda família, mas essa é, minha mãe,                                                     dona Cida.
                                           1933
                    apenas com um pouco mais de um ano



        A sede ao fundo eu um de meus irmãos, parte de nossa infância foi lá. Ao centro meu pai na criação de frangos e a direita com familiares, vovo Francisco Robusti, tio Niltom e tia Tereza



"Criada nesse ambiente cresceu bonita...  





injusta denomina-la assim...




 linda mesmo."



"Esse ambiente amigável, de proximidade, aconchegante, ambiente familiar formou temperamento sereno, tranquilo, reflexivo e de reações moderadas."














Filha de imigrante Italianos, daqueles que vieram para substituir a mão de obra escrava nos cafezais Brasileiros
Pois é, essa foto exprime bem  a frase " filha de imigrantes italianos ". Não se sabe ao certo onde foi registrada essa imagem se lá ou aqui mais ai estão "vovó Paca" - assim como ela, dona Cida e sua família carinhosamente a chamava. Tratava-se de minha bisavó sra. Francisca Lagandara Spedo e ao seu lado direito de terno vovô Lione Spedo ( meu bisavô ), Sentada a direita está minha tataravó, e essa menina segurando a sombrinha é nossa vó, Pamira Sofia Robusti, mãe de dona Cida, carinhosamente a chamada de vovó Palmira.







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