O DJ

            O charme de sua decoração, ambiente de altos e baixos, dois bares em seu interior, e seu inesquecível som. Potente, composto, pesado, afinado o som era sim o melhor. Tinha sim a melhor acústica, a melhor distribuição entre graves médios e agudos, tinha ... tinha mesmo. Mas sei que tudo isso de nada adiantaria, todo esse material, tenho certeza se não estivesse nas mãos certas. A música efervescente, boa, moderna era selecionada pelo próprio DJ, que mantinha seu acervo a chave. Emprestar NÃO. Pra ninguém. Não existia ninguém capaz de conseguir tal feito. Vinis vindos de fora comprados a dólar, que era o fino da época, ditava o que se tocaria nas rádios
meses depois, até no ano seguinte, isso muita gente viveu e não percebeu. Músicas escolhidas pelo DJ, muitas, muitas faziam sucesso só no ano seguinte. As músicas também eram oferecidas por empresários, promoters os próprios cantores e bandas, jamais eram jogados fora. E o DJ ? Seu sistema de escolha era curioso. As vezes chamava-me para escutar alguma novidade, lógico, não conseguia interferir nunca em suas escolhas. Mas mesmo aquelas que podia arriscar que faria sucesso, que de cara gostava e percebia que ele também, mesmo assim ele escutava, escutava e escutava. 3, 4, 5, 10 vezes. Tinha uma sensação estranha: Quanto mais eu escutava a mesma música, mesmo ela já ter me conquistado, ficava melhor, e na medida em que isso aconteceu mais vezes, percebi que naqueles botões que girava pra esquerda ou direita, que deslizava pra cima ou pra baixo, não era nenhuma mania ou charme não, era como se tivesse afinando o seu instrumento para toca-la. Isso é o que eu achava, agora, o porque ele fazia isso, mesmo depois de ter aprovado-a, vai entender, pois em sua reprovação bastava escutar uma única vez e nunca o vi mudar de idéia. Quem viu sabia, era um sujeito determinado. O domínio da pista, o bom gosto em suas escolhas, seu som arrojado, sofisticado, refinado lhe dava um talento que o tornou conhecido, conhecido mesmo. O que o fazia ser o que era, não era simplesmente o conhecimento do equipamento, não era só  a habilidade 

atende-la em caso de sua falta, pois quando ocorria não avisava com antecedência, simplesmente faltava. O substituto morava em copacabana, lembro-me, dava a hora e não chegava ligávamos o som colocávamos uma fita do tamanho do tempo da chegada do substituto, acredita que uma boate deste porte podia funcionar desse jeito ? Pois é, acredite, era assim mesmo. O substituo, bem... o substituto era um cara de família, equilibrado até entendia, mas de música mesmo... “quebrava só um galho”. Impressiona-me o fato de uma casa ter existido a tanto tempo, décadas, reconhecida internacionalmente, seja tão pouco citada. È difícil encontrar uma pessoa dessa geração que não esteve lá pelo menos uma vez. O Dj então, peça fundamental daquele sucesso nem em internet é citado com relevância. Em pesquisa só vi uma citação, claro, elogiosa, a do hoje radialista e dj Marcus Guedes em seu blog http://terefmmarcusguedes.blogspot.com, ao qual cita que começou sua carreira em 76 ao lado de duas feras o Hulk e zequito. Desculpe-me Marcus, visitei seu blog é um cara que entende, sua presença nas pistas até hoje atesta isso, tá antenado deve ter um certo apreço pelo zequito, mas na época o zequito era substituto do reserva. Então... Falo mesmo é do Hulk e a “ casa “ amigos, era a Mikonus no leblon. 

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